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13 anos do desaparecimento do Cabo Édio dos Santos Fernandes e o abandono de um policial pelo Estado que ele jurou proteger.

  • 13 de mar.
  • 4 min de leitura

13 ANOS DE SILÊNCIO E DESPREZO.

13 anos do desaparecimento do Cabo Édio dos Santos Fernandes, um mistério fácil de se resolver porque existem um suspeito do caso livre. Basta interesse das autoridades.



Em 10 de abril de 2012, um veterano da Polícia Militar de Santa Catarina saiu de casa e nunca mais voltou. Édio dos Santos Fernandes, Cabo da PMSC, então com 52 anos, deixou sua residência no Balneário Arroio do Silva dirigindo um Fiat Pálio cinza, placas MEN 3310, e desapareceu como se a noite o tivesse engolido. Nem ele, nem o carro foram encontrados até hoje. Treze anos depois, em 2025, completando 14 anos agora em Abril de 2026 sua família ainda não tem um corpo para velar, não tem um túmulo para visitar, não tem uma resposta sequer para a pergunta mais básica que alguém pode fazer: o que aconteceu?


A história do Cabo Édio é, antes de tudo, a história de um homem que dedicou décadas de sua vida a proteger a sociedade catarinense. Um policial que fez rondas, que esteve nas ruas, que vestiu a farda todos os dias com o compromisso que a profissão exige. E é também, tragicamente, a história de como esse mesmo Estado que ele serviu o abandonou completamente quando chegou a hora de investigar seu desaparecimento, de pressionar por respostas, de ao menos fingir que a vida de um cabo da PM importava.



Nos primeiros dias após o desaparecimento, um Boletim de Ocorrência foi registrado na 1ª Delegacia de Polícia de Araranguá. A Polícia Civil e a Polícia Militar iniciaram apurações. Havia pistas. Havia suspeitos identificados. Havia testemunhas a serem ouvidas, áreas a serem vasculhadas, caminhos a serem seguidos. E então, num ritmo que infelizmente é familiar para quem conhece os bastidores das investigações no Brasil, tudo foi esfriando. As diligências foram se tornando esporádicas, os relatórios foram engavetados, e o caso foi silenciosamente empurrado para o limbo burocrático onde tantas histórias incômodas vão morrer.


Este blog publicou pela primeira vez uma matéria extensa sobre o desaparecimento do Cabo Édio anos atrás. Depois, voltou ao tema numa segunda ocasião. O site Sulinfoco também fez sua cobertura na época. Em ambos os casos, a repercussão que se esperava, uma reação das autoridades, uma reabertura formal das investigações, algum sinal de vida por parte das instituições responsáveis, simplesmente não veio. O silêncio foi a única resposta. Um silêncio ensurdecedor que dura, para a família de Édio, há treze anos.


E o que fizeram, nesse tempo todo, os governantes, os políticos, as secretarias de segurança pública, os comandantes da corporação, os municípios onde Édio viveu e onde serviu? Absolutamente nada. Nenhum governador determinou a reabertura do caso. Nenhum secretário de segurança pública criou uma força-tarefa. Nenhum deputado estadual ou federal apresentou um requerimento em memória ou em defesa da investigação. Os Vereadores de sua cidade nem tocaram no assunto. O município de Araranguá, onde Édio passou anos da sua vida profissional protegendo cidadãos, não esboçou qualquer esforço para pressionar as autoridades. O município de Arroio do Silva, onde ele morava e de onde desapareceu, igualmente. A cúpula da Polícia Militar, que tanto fala em não abandonar os seus, ficou calada. O Ministério Público, que existe justamente para fiscalizar e pressionar quando as investigações empacam, não se manifestou com a contundência que o caso exigia.


Quem não abandonou Édio foram as pessoas que mais têm o direito de estarem exaustas: a sua família. Em especial sua filha, que carrega há mais de uma década o peso duplo da saudade e da indignação. Que acorda todos os dias sem saber o que aconteceu com o pai. Que não tem nem o direito ao luto completo, porque sem um corpo, sem uma certidão de óbito, sem um desfecho, o sofrimento fica suspenso num estado cruel de indefinição permanente. Além da dor, a família ainda enfrenta as consequências práticas e documentais de um desaparecimento sem resolução: bens que não podem ser regularizados, inventário que não pode ser aberto, uma vida administrativa completamente travada porque o Estado se recusou a dar um fim ao caso.


É preciso dizer isso com todas as letras: o abandono do Cabo Édio não foi acidente. Foi escolha. Escolha de não investigar com seriedade. Escolha de não pressionar. Escolha de tratar a vida de um policial aposentado como se valesse menos do que a de outros cidadãos. Escolha de deixar uma família à própria sorte enquanto os responsáveis pelo desaparecimento, e sim, há suspeitos, há fatos que apontam direções claras, continuaram livres, sem que ninguém batesse em suas portas.


O governador atual de Santa Catarina tem nas mãos uma oportunidade concreta de reverter esse histórico vergonhoso. Não é necessário um milagre. É necessária uma ordem: reabrir o caso, mobilizar a inteligência policial do Estado, determinar cooperação entre Polícia Civil, Polícia Militar e Ministério Público, e tratar o desaparecimento do Cabo Édio com a seriedade que deveria ter recebido desde o primeiro dia. O comandante-geral da Polícia Militar tem a mesma responsabilidade. Sua corporação perdeu um membro em circunstâncias nunca esclarecidas. O mínimo que se espera de uma instituição que prega honra e lealdade é que não se renda ao esquecimento conveniente.


A verdade não desapareceu junto com Édio. Testemunhas ainda podem ser encontradas. Suspeitos podem ser confrontados. Evidências podem ser recuperadas com as técnicas forenses disponíveis hoje. O tempo passou, mas não apagou tudo, e investigadores competentes, com vontade real de resolver o caso, têm onde começar. O que faltou até aqui não foi capacidade. Foi vontade.


Este blog volta a publicar sobre o Cabo Édio porque acredita que jornalismo policial comprometido não fecha os olhos para casos inacabados. Publicamos na primeira ocasião em 16 de Novembro de 2016, depois em 12 de Junho de 2025 e agora esta matéria em 13/03/2026. Porque enquanto houver uma filha que ainda pergunta o que aconteceu com o pai, enquanto houver uma família que ainda espera um lugar para chorar, enquanto houver suspeitos que ainda não foram responsabilizados, a história não acabou. E nós não vamos parar de contar.


À sociedade catarinense, especialmente das cidade de Araranguá e Arroio do Silva pedimos: compartilhem essa história. Marquem autoridades, políticos, jornalistas, delegados, promotores. Façam barulho. O silêncio é o maior aliado de quem não quer que a verdade venha à tona. E já chega de silêncio.


Édio dos Santos Fernandes. Desaparecido em 10 de abril de 2012. Treze anos esperando por justiça. Sua família não vai parar. E nós, tampouco.


FERNANDO ALMEIDA

BLOG DE INFORMAÇÕES POLICIAIS DO BRASIL


 
 
 

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