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JUIZ É DEMITIDO EM RONDÔNIA POR HUMILHAR COLEGAS.

  • 2 de mai.
  • 4 min de leitura

ELE ENQUANTO JUIZ SE ESQUECEU DE QUANDO ERA POBRE E HUMILDE.


QUANDO O PODER ESQUECE SUA PRÓPRIA TRAJETÓRIA:


Falamos aqui das reflexões sobre conduta, caráter e o peso invisível dos títulos.


Há histórias que chegam até nós com o sabor agridoce da contradição. Histórias que começam com a beleza da superação e terminam com a tristeza do desvio. A do ex-magistrado Robson José dos Santos, exonerado pelo Tribunal de Justiça de Rondônia após processo administrativo disciplinar concluído no início deste ano, é uma dessas histórias.

E ela merece ser contada, não para humilhar quem errou, mas para iluminar o que tantos de nós ainda precisamos aprender.



A BELEZA DE UMA TRAJETÓRIA:

O Menino vendedor de pipocas.


Robson nasceu na periferia do Recife. Ainda criança, percorreu ruas quentes vendendo pipoca e picolé para ajudar a família. Estudou à noite, quando o cansaço do dia pesava nos ombros. Conheceu a fome, não como figura de linguagem, mas como realidade concreta e cruel. E, mesmo assim, não desistiu.

Foram mais de setenta tentativas em concursos públicos ao longo de uma década inteira. Setenta vezes em que ele poderia ter parado. Setenta vezes em que escolheu continuar. Até que a porta se abriu, e ele entrou na magistratura de Rondônia.

Era uma história bonita. Era o tipo de trajetória que inspira quem ainda está na luta, que faz alguém olhar para a própria dificuldade e pensar: se ele conseguiu, eu também posso.


O MOMENTO EM QUE O CAMINHO SE BIFURCA:


Mas há um instante perigoso na vida de quem sobe,e esse instante não vem anunciado.

É o momento em que o título chega. Em que o cargo é assinado. Em que o nome passa a vir acompanhado de uma função, de um poder, de um símbolo de autoridade. E é exatamente aí que muitas pessoas, não todas, mas muitas, começam a esquecer quem eram antes.

O processo disciplinar que resultou na demissão de Robson apontou condutas que revelam justamente esse esquecimento. Tratamento grosseiro e desrespeitoso com servidores, assessores e demais profissionais do sistema de Justiça.

Condutas que desconsideravam protocolos fundamentais do Judiciário. Interferência indevida em ambientes que exigiam rigor e responsabilidade. Um padrão, não episódios isolados, conforme concluiu o próprio tribunal, incompatível com o exercício da magistratura.

O tribunal ressalvou que todo o processo foi conduzido com respeito às garantias legais, incluindo o pleno direito à defesa. Robson ainda se encontrava em estágio probatório, período que existe precisamente para avaliar não apenas competência técnica, mas também, e talvez principalmente, conduta ética.


O QUE NOS CUSTA ESQUECER:


Existe algo profundamente humano, e ao mesmo tempo profundamente trágico, nessa dinâmica. Muitos de nós já a vimos acontecer. Talvez tenhamos presenciado no trabalho, nas instituições, nas relações cotidianas.

A pessoa que um dia foi humilde, que pediu favor, que dependeu da boa vontade alheia para crescer, essa mesma pessoa, ao conquistar uma posição de poder, às vezes passa a tratar os outros exatamente como nunca gostaria de ter sido tratada. Como se o cargo criasse uma nova identidade e apagasse a memória do que veio antes.

Infelizmente, isso não é raro. Em escritórios, hospitais, escolas, fóruns, repartições públicas, onde houver hierarquia, haverá a tentação de usá-la como instrumento de dominação em vez de serviço. E muitos cedem a essa tentação sem sequer perceber que cederam.

Usam o cargo para intimidar quem depende deles. Usam o título para não precisar ouvir. Usam a autoridade para não precisar se justificar.

E esquecem, esquecem que um dia foram exatamente aquela pessoa do outro lado.


O QUE OS TÍTULOS REALMENTE SÃO:


Há uma compreensão mais profunda sobre a natureza do poder que vale a pena considerar: um título não nos torna maiores. Ele apenas nos dá mais responsabilidade, e mais capacidade de afetar a vida dos outros, para o bem ou para o mal.

Um cargo é uma ferramenta. E como toda ferramenta, seu valor moral está inteiramente em como é usada. Um bisturi nas mãos certas salva vidas. Nas mãos erradas, causa dano irreparável.

Quem sobe na vida carregando a memória de onde veio tem um tesouro raro: a empatia conquistada pela experiência. Sabe o que é ser ignorado. Sabe o que é precisar de uma chance. Sabe o que é depender de um sim onde normalmente só se recebe um não.

Essa memória, quando preservada, transforma líderes em servidores genuínos. Quando descartada, transforma pessoas que poderiam inspirar em pessoas que ferem.


O QUE A VIDA COBRA DE VOLTA:


Existe uma lei silenciosa que rege as relações humanas, independente de crença ou doutrina: o que fazemos com o poder que recebemos volta para nós, de alguma forma, em algum tempo.

Não como punição mágica ou vingança cósmica, mas como consequência natural de quem nos tornamos. A pessoa que usa seu cargo para humilhar vai, aos poucos, se tornando alguém que só existe por causa do cargo. Retire o título, e não sobra nada que os outros queiram perto de si.

Já a pessoa que usa sua posição para servir, para abrir portas, para tratar o outro com a dignidade que gostaria de ter recebido no tempo em que mais precisava, essa pessoa constrói algo que nenhum processo disciplinar pode tomar: o respeito genuíno, que permanece mesmo quando o cargo vai embora.



UMA HISTÓRIA QUE PODE SERVIR A MUITOS:


A trajetória de Robson José dos Santos, em sua totalidade, é um espelho que merece ser encarado com honestidade.

A parte de baixo desse espelho, a criança que vendia picolé, o jovem que estudava com fome, o candidato que tentou setenta vezes, é inspiradora e real. Merece reconhecimento.

A parte de cima, o magistrado cujas condutas foram consideradas incompatíveis com o cargo que conquistou, é um aviso. Um aviso de que a chegada não é o fim da jornada. De que o verdadeiro teste de caráter começa, na verdade, quando as portas se abrem.

Que possamos, cada um de nós, lembrar disso quando for a nossa vez de estar do lado de cima. Que não usemos o que conquistamos para apagar quem fomos. Que o caminho percorrido nos torne mais humanos, não menos.

Porque títulos passam. O que fica é o que fizemos com eles enquanto os tínhamos.

Reflexão publicada no blog para leitura, debate e crescimento coletivo.



FERNANDO ALMEIDA

REDAÇÃO BLOG DE INFORMAÇÕES POLICIAIS DO BRASIL





 
 
 

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